A PIRÂMIDE INVERTIDA E A HISTÓRIA DA TÁTICA NO FUTEBOL

Por Guilherme Rodelli, 16/07/2020.

O livro A Pirâmide Invertida (Inverting the Pyramid, no original) foi escrito por Jonathan Wilson e é considerado por muitos especialistas no assunto como a “Bíblia da Tática”. Nele, Wilson descreve, baseado em relatos e entrevistas, como se desenvolveu a tática no futebol ao longo do tempo.

Ao contrário do que muitos pensam, o estudo do comportamento e posicionamento dos jogadores de futebol existiu desde os primórdios do jogo. Um bom exemplo é a discussão de futebol de passes curtos contra futebol de passes longos, representados, respectivamente, por Escócia e Inglaterra no final do século XIX.

O jogo foi disseminado pelos ingleses, assim como suas regras, mas cada país adaptava a sua própria forma de jogar. A evolução, por conta da disseminação da informação naquela época, foi lenta e os países da Europa continental só viam do esporte britânico por meio de excursões dos times ingleses.

O Time Maravilha da Áustria

Dentre os destaques de Wilson, percebemos que o termo “falso nove” não é algo tão atual. O primeiro falso nove efetivo no futebol foi Matthias Sindelar, da Áustria. Porém, G. O. Smith, do Corinthian da Inglaterra, já fazia o movimento de abandonar a posição mais avançada do ataque para buscar a bola no meio de campo quando o esporte ainda era praticado com sete jogadores no ataque.

Wunderteam: Matthias Sindelar em ação na vitória da Áustria por 6-0 contra a Alemanha em Berlim (1931) (Fonte: ullstein bild via Getty Images)

Inclusive Sindelar, conhecido como Der Papierene (Homem de Papel) por conta de sua leveza e agilidade, foi um dos maiores jogadores austríacos da época e símbolo daquela geração que não ganhou nenhuma Copa do Mundo, mas fez parte do time mais revolucionário do início do século XX, o Wunderteam.

O Wunderteam (Time Maravilha) era a seleção da Áustria – potência na década de 1930 – comandada por outro nome extremamente relevante para o futebol: Hugo Meisl. Com o treinador, o selecionado austríaco conquistou 12 vitórias seguidas contra outros adversários europeus, marcando 52 gols. A invencibilidade foi quebrada contra a Inglaterra num 4 a 3 no Stamford Bridge. Apesar da derrota, o time de Meisl saiu aplaudido do estádio pela bravura e dificuldade que impôs aos ingleses.

Assim como os times evoluíam, os esquemas táticos eram mudados para “anular” a ideia anterior. O 2-3-5 deu lugar ao W-M desenvolvido por Jimmy Hogan (um dos primeiros treinadores a trabalhar o aspecto físico dos jogadores) e assim a Inglaterra se considerava a maior potência, mesmo sem títulos mundiais até então.

LEIA MAIS: Veja a resenha completa do livro feita pelo MW Futebol

O choque de realidade perante ao futebol jogado na parte continental da Europa aconteceu em 1953, num amistoso contra a seleção húngara. A partida ficou marcada como “o jogo do século”.

O confronto é um marco na história da tática porque mostra a prepotência dos ingleses, que acreditavam que, por inventar o esporte, o praticavam da forma “correta”  – sim, essa discussão também já existia naquela época – sendo destruída pelas ideias revolucionárias de Gustav Sébes, técnico da seleção da Hungria. Ali no time de Sébes, via-se o embrião do 4-2-4, popularizado pelo Brasil cinco anos depois na Copa do Mundo da Suécia

Wilson, no livro, continua investigando como e porquê as mudanças nos esquemas táticos eram feitas. Em ordem cronológica, o autor cita logo após o 4-2-4, encontrado em forma avançada na América do Sul (Brasil, principalmente) por Béla Guttmann*, uma alteração que levaria ao 4-3-3: as diagonais do Brasil de 1962. Naquele time, Zagallo, essencialmente um atacante, voltava para numa posição mais recuada e preenchia o meio de campo. Como não se alinhava aos outros dois meias, não era considerado um 4-3-3.

*Técnico do histórico do Benfica 

Futebol Total

O “verdadeiro” 4-3-3 explode com a Holanda de Rinus Michels e Johan Cruyff junto da ideia do futebol total. A Copa de 1974 celebra esse que é um dos times mais revolucionários da história. Sem dúvidas, foi a equipe que mais ideias diferentes apresentou contra o que estava estabelecido até então no futebol. 

O jogador mais revolucionário taticamente do esporte (Fonte: Getty Images)

Alguns dos diferenciais do futebol total foram: a marcação pressão, diversos jogadores pressionando o portador da bola; rotação de posições, porque, até então, a marcação era majoritariamente feita de forma individual; e a possibilidade de mudança de esquemas táticos durante a partida. Não era raro ver o Carrossel Holandês se distribuir com três jogadores na defesa, quatro no meio e mais três no ataque, com Cruyff circulando por todos os setores.

Após essa demonstração de força dos Países Baixos com a sua seleção nacional e o Ajax, o mundo do futebol teve que criar uma forma de prevenir tal supremacia. Dessa forma, na década de 1980, o jogo mais pragmático dominou clubes e seleções. Foi neste momento que surgiu o líbero, por exemplo.

Cada vez mais, quem enxergava e estudava o futebol percebia que a tendência era despovoar o ataque (antes com sete jogadores) para melhorar a defesa e o meio de campo. O 3-5-2 foi dominante até a metade de 1990 com seleções campeãs do mundo nesse esquema (Argentina em 86 e Alemanha em 90). Depois, veio o 4-4-2 em linha na Inglaterra e, de forma mais contemporânea, seguiu-se por um boom do 4-2-3-1, que é uma espécie de variação do próprio 4-4-2.

No começo do futebol, os times buscavam preencher o máximo possível o ataque (Fonte: A Pirâmide Invertida. Editora Grande Área).

Hoje em dia, a diversidade de esquemas é possibilitada pela disseminação da informação e representa as diversas culturas e escolas do futebol pelo mundo. A discussão sobre certo e errado ou bom versus ruim não cessará. Cada vez mais os esquemas serão renovados, seja para anular algum sistema dominante ou por criar um jeito diferente de se ver o jogo. O importante é entender que o esporte é plural.

Por fim, o nome “Pirâmide Invertida” representa a inversão da quantidade de jogadores entre ataque e defesa dos primórdios até hoje. Se antes tínhamos cinco jogadores no ataque, três no meio e dois na defesa, hoje vemos times com o inverso: linha de cinco na defesa, três ou quatro no meio de campo e dois ou apenas um jogador no ataque. Ou seja, a pirâmide foi invertida. Até onde os esquemas táticos podem ir? Qual é o próximo passo?

P.S.: No livro há muitos outros destaques de times e seleções que não foram citados aqui como, por exemplo, o ferrolho suíço, a Inter de Helenio Herrera com o jogo à italiana, a argentina dividida entre Bilardo e Menotti, o Shakhtar Donetsk de Mircea Lucescu e até o Barcelona de Pep Guardiola. Para saber mais sobre esses marcos na história da tática, fica a recomendação de leitura desta grande obra.

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